A ESTRATÉGIA GEOPOLÍTICA RUSSA E SUAS REVERBERAÇÕES NA EUROPA, ÁFRICA E ORIENTE MÉDIO
- rafaelpupomaia
- 20 de nov. de 2023
- 19 min de leitura
Como já descrito no artigo Conclusões Prévias Sobre a Estratégia Geopolítica Russa na Invasão da Ucrânia, publicado em dezembro de 2022, a Rússia executa uma guerra de desgaste na Ucrânia, visando drenar os importantes recursos militares e financeiros do Ocidente para apoio ucraniano, causando reverberações econômicas e políticas internas, abrindo oportunidades de políticos sem laços com o Ocidente alcançarem o poder. A estratégia do Kremlin não é apenas solucionar momentaneamente seu problema, mas enfraquecer o poder dos EUA no Sistema Internacional, abrindo lacunas para que os países emergentes como Rússia, China e Índia surjam como um novo baluarte da Nova Ordem Mundial.
Com este intuito a Rússia opera na Ucrânia. No entanto, após a tentativa de golpe no Estado russo, Vladimir Putin amargou uma derrota no cenário político interno devido a traição de um aliado próximo, que quase culminou em um golpe de Estado na Rússia. Diante da ameaça tangível de regime change na Rússia, estranhos fenômenos podem ser vistos e analisados no Ocidente, possível financiador e incentivador de uma mudança de governo em Moscou. A partir do motim do Wagner Group em 23 de junho de 2023, assistiu-se uma série de reviravoltas políticas no Ocidente e em seus aliados.
Logo em seguida a tentativa de golpe na Rússia, tumultos eclodem pela França. No final de junho de 2023, um jovem de ascendência norte-africana foi morto numa blitz da polícia francesa. Na noite seguinte, manifestantes revoltados tomaram as ruas de Paris para protestar contra a morte do jovem, com intuito muito próximo ao Black Lives Matter. As manifestações escalaram rapidamente e culminaram em incêndios e confrontos com as autoridades. Nas noites seguintes os protestos tomaram proporções maiores, se espalhando pela França e se tornando cada vez mais violentos. Nas manifestações foram incendiados carros e comércios, casas foram saqueadas e cerca de 250 estações policiais foram atacadas, assim como clínicas de saúde, escolas, bibliotecas e Câmaras Municipais. Até políticos foram atacados, com o prefeito de L'Hay-les-Roses, Vincent Jeanbrun, tendo sua casa invadida com sua mulher e seus filhos pequenos na residência.
A França novamente foi mergulhada no caos, com erupções de protestos e violência no país inteiro. A anarquia havia tomado conta de algumas partes das cidades francesas e os distúrbios e choques com a polícia se tornavam normais. O governo prontamente convocou os efetivos policiais e os colocou nas ruas tentando garantir a ordem, ao mesmo tempo adotou uma retórica pacifista. O presidente francês Emmanuel Macron, que enfrentou diversos protestos em seu governo, se volta para enfrentar mais uma crise interna e tensões sociais. Desde 2017 foram três episódios de grandes convulsões sociais na França: movimento dos coletes amarelos, a aprovação de uma reforma previdenciária impopular e os saques e violência pela morte do jovem francês.
Imagem 01: Mapa dos distúrbios na França após a morte do jovem:

Fonte: Hancock (2023)[1]
Além de utilizar todo o aparato de força do Estado, o presidente francês culpou o TikTok e outras redes sociais pelo aumento da violência e da escalada dos protestos pelo país, exigindo a remoção dos conteúdos sensíveis das plataformas, inclusive o antigo Twitter suprimiu diversas contas que publicavam fotos e vídeos dos motins, mesmo de pessoas que não estavam localizadas na França. Portanto, de certa forma, o governo francês recorreu a um certo grau de censura para garantir o estado de ordem.
Por um momento, imagine se isso ocorresse no Brasil, na Índia, na Rússia ou na China. Haveria um imensurável número de mídias ocidentais criticando a falta de democracia desses países, inclusive Paris, pois a censura não é um valor democrático. Por menos, países foram sancionados pela UE e EUA. No entanto, pouco se falou desses atos na França e poucas críticas a democracia foram feitas a Paris, o berço da Revolução Francesa. Nisto, percebe-se a idiossincrasia do Sistema Internacional.
Depois de vários dias de convulsões sociais que culminaram na declaração de Estado de emergência no país, assim como diversos danos públicos e privados, os protestos foram diminuindo e perdendo força, sendo reprimidos pelas autoridades. No decorrer das manifestações, cerca de cinco mil propriedades foram incendiadas, mais de 450 lojas saqueadas e mais de 300 caixas de bancos destruídos. Só em Paris, os motins causaram danos no transporte público estimados em 20 milhões de euros.
O presidente Macron claramente sai enfraquecido deste distúrbio, tendo que abandonar uma cimeira da UE sobre migração para dar atenção à crise interna em seu país. O líder francês foi imerso na crise interna e suas consequências, deixando de exercer certa influência no cenário internacional, o que para Paris é algo estratégico para seus interesses nacionais e seu sonho de ser uma potência no cenário internacional.
Logo após as convulsões sociais que abalaram o país, no dia 11 de julho, Macron anuncia que a França enviaria à Ucrânia mísseis de longo alcance, numa demonstração de força contra a Rússia, uma vez que os mísseis poderiam atingir tropas russas e suprimentos bem atrás das linhas de frente, inclusive em território russo. Os mísseis seriam entregues do próprio arsenal francês, mais uma vez, corroborando a tese descrita sobre a estratégia russa.
Ainda em julho, um golpe de Estado no Níger retira do poder o presidente Mohamed Bazoum por uma junta militar liderada pelo General Abdourahamane Tiani. Os militares da ex-colônia francesa asseguraram o poder por razões de segurança e econômicas. Por mais surpreendente que possa parecer, houve um massivo apoio popular ao golpe, com manifestantes saindo às ruas por todo o país demonstrando apoio à junta militar.
Não é um fato novo os distúrbios políticos e golpes de Estado na África. No entanto, recentemente golpes militares com teor nacionalista e antiocidental vem ganhando força. Nos últimos anos diversos golpes deste modelo ocorreram na África. Apenas em 2021, quatro golpes de Estado ocorreram no continente com este viés.
A tomada de poder no Níger foi um sério golpe na influência francesa na região, ou seja, mais uma crise para o presidente Macron se preocupar. A questão francesa na África não é apenas por influência política, cultural e militar em suas ex-colônias, mas sim pela questão econômica e, principalmente, energética.
O Níger é abundante em recursos naturais minerais, sendo responsável por 5% da produção mundial de urânio, ocupando a posição de sétimo maior produtor do minério. Isto é muito vantajoso para Paris, uma vez que cerca de 70% da energia elétrica no país é proveniente da energia nuclear, onde a principal fonte da fissão nuclear para a sua base energética vem do urânio. Com a influência e contratos de investimentos na mineração do metal com o antigo governo de Niamei, as mineradoras francesas tinham uma cota pré-estabelecida de urânio a um valor negociado com o governo. Como explicado:
"A produção é primeira vendida aos parceiros proporcionalmente ao seu capital a um 'preço de extração' determinado pelo governo, teoricamente baseado nos custos de operação (...). Os sócios então vendem ou utilizam, no caso do governo, por meio de uma trading company" (WORLD NUCLEAR ASSOCIATION, 2023b - tradução do autor).
A França viu com a guerra da Ucrânia e na luta da Europa de se desvencilhar do gás natural russo, a opção de aumentar sua capacidade energética através da energia nuclear e sua influência em suas ex-colônias produtoras de urânio, que permitem preços mais competitivos. Não por acaso, Paris se tornou o maior exportador de energia da Europa, o que gera uma grande receita para o país.
Nos primeiros dias do golpe, os países europeus liderados pela França anunciaram a evacuação de seus cidadãos do Níger e sanções foram aplicadas ao país. Apelos à democracia foram feitos e a reestabilização da ordem no país demandados. Mesmo assim, o golpe perdurou. A Comunidade dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) condenou o golpe no Níger e afirmou que todas as opções estavam na mesa para restaurar a ordem, inclusive o uso da força militar. Os EUA também suspenderam oficialmente toda assistência prestada ao país.
Neste meio tempo, países que já experimentaram golpes militares e apresentam um governo nacionalista, sem o apoio e a influência do Ocidente, expressaram seu apoio ao Níger e afirmaram que uma invasão seria entendida como uma declaração de guerra. Como o comunicado conjunto afirmou: “Qualquer intervenção militar contra o Níger equivaleria a uma declaração de guerra contra o Burkina Faso e o Mali” (RT, 2023a - tradução do autor). Tal ponto mostra a união dos países africanos que apresentam uma vertente nacionalista e antiocidental, assim como colocou medo em relação a uma escalada no conflito na região caso haja a intervenção militar no Níger.
O golpe se firmou no Níger, mostrando um afastamento da influência francesa e buscando em Moscou um refúgio político e militar, uma vez que a China já apresenta uma enorme importância econômica na África. O Wagner Group avaliou o golpe como uma boa notícia ao mundo, oferecendo os seus serviços a Niamei. O presidente Emmanuel Macron confirmou a retirada do Exército Francês do Níger no final setembro, resultando em outubro na retirada total das forças francesas na região, com cerca de 1,5 mil soldados e equipamentos sendo escoltados pelas forças do Níger para fora de seu território.
Tal fato culminou no estabelecimento do poder pela junta militar e na derrocada da influência francesa no país, o que pode se consumar na perda de exclusividades nos contratos de extração e compra de urânio, ou seja, este cenário consolidou mais uma grande derrota geopolítica para o governo de Macron.
Não há provas consistentes para afirmar que a Rússia desempenhou um papel no golpe no Níger, mas existem suspeitas em relação ao envolvimento russo, mesmo Moscou condenando a violação da constituição do país. Nos últimos anos, o governo de Putin vem estreitando sua relação com os países africanos de forma contundente. No final de agosto de 2023, a Rússia vetou na ONU a proposta da França e EAU (Emirados Árabes Unidos) de prorrogar as sanções sobre o Mali, devido ao golpe de 2021. Não por acaso, o Wagner Group atua fortemente no Mali em conjunto com as forças de Bamako.
O governo italiano por meio do ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, se pronunciou em relação ao golpe no Níger, afirmando que não tinham provas de que Moscou estaria por trás do evento. Ele explicou que o apoio da população ao golpe, inclusive com bandeiras da Rússia e fotos de Putin, eram manifestações anti-francesas e não necessariamente pró-russas. A autoridade italiana afirmou que a França e a Europa foram pegas de surpresa com o golpe no país e na região. Mesmo se esquivando de colocar a Rússia como um player efetivo no golpe, Tajani reconheceu que com a presença do Wagner Group na África, "(...) Moscou se infiltrou habilmente naquela região durante anos” (RT, 2023b - tradução do autor), reconhecendo o aumento da influência russa na África.
Com todo este cenário caótico ocorrendo para a França e a UE, no dia 30 de agosto de 2023, os militares do Gabão anunciaram a tomada do poder do presidente Ali Bongo, cuja família já governava o país por mais de meio século. Seguindo o mesmo caminho do Níger, os militares gaboneses indicaram o general Brice Oligui Nguema para liderar o país, contando com um massivo apoio popular. O governo nacionalista do país tem seus laços estremecidos com seu principal parceiro e ex-colonizador, a França. Paris se vê imersa em mais uma nova crise geopolítica.
A França, os EUA, a ONU e a União Africana condenaram o golpe no Gabão. É necessário entender a importância do Gabão para a França e para a estrutura de dominação Ocidental. O Gabão é uma ex-colônia francesa que manteve por mais de cinquenta anos a mesma família no poder, o que auxiliou a fortalecer essa relação positiva. O país é um grande produtor de petróleo, produzindo cerca de 200 mil barris por dia, e apresenta uma abundante quantidade de recursos naturais como: urânio, ferro, diamante, ouro e manganês, este último sendo um dos maiores produtores mundiais.
O Gabão apresenta uma grande dependência de capital estrangeiro e de tecnologia para extração de seus recursos, nunca se desenvolvendo no meio. Pelo contrário, o capital francês sempre foi predominante no país, com as principais empresas francesas sendo responsáveis pela extração dos recursos naturais, como: TotalEnergies, a anglo-francesa Perenco e a mineradora Eramet. Não por acaso, a mineradora francesa que possui grande parte da extração de manganês no país, após o golpe, interrompeu as operações por um curto período. Além do capital, a França possui cerca de 350 militares no país, reforçando sua influência e seu domínio.
Além de ter uma imensa reserva de recursos naturais que interessam a Paris e deter uma balança superavitária em relação a Libreville, o urânio do Gabão também auxiliou na alimentação dos reatores nucleares franceses.
Por mais que a Rússia não esteja sendo acusada formalmente de participar ativamente dos golpes na África, é possível analisar que a partir de 2021, os golpes no continente foram contundentes, todos com um viés nacionalista e com tendências antiocidentais. Observa-se que em grande parte, a tomada de poder ocorreu em ex-colônias francesas e todas com importantes laços com Paris. Em 2021, golpes ocorreram: no Chade, no Mali, na Guiné (todos ex-colônia francesa) e no Sudão (ex-colônia britânica).
No início da guerra da Ucrânia, em fevereiro de 2022, golpes na região africana do Sahel continuaram com o movimento iniciado previamente. Em 2022, Burkina Faso (ex-colônia francesa) sofreu um golpe de Estado e catapultou Ibrahim Traoré ao poder, que possui boas relações com Moscou. Em 2023, mais duas ex-colônias francesas na região sofreram trocas de poder: o Níger e o Gabão.
Imagem 02: Golpes de Estado na África a partir de 2021

Fonte: Poder 360 (2023)[2]
Dentre os diversos resultados dos golpes de Estado na África para a França, a tomada de poder no Níger e no Gabão tiveram consequências drásticas para a principal fonte de energia francesa. Neste ano, o preço do urânio saltou cerca de 50%, maior alta histórica em 12 anos, devido as preocupações com a segurança energética dos países, atingindo US$ 73,00 o preço do minério concentrado de urânio, ante cerca de US$ 55,00 o valor do minério negociado em julho de 2023. O aumento da demanda global pela energia nuclear, somada as inseguranças energéticas na Europa, a proibição da exportação de Urânio enriquecido pela Rússia (detentora de cerca de 40% da capacidade mundial de enriquecimento) e golpes militares em países produtores de urânio - como o Níger e o Gabão - auxiliaram no aumento vertiginoso dos preços.
Como as principais mudanças de governo se deram em ex-colônias francesas, onde o governo francês considera seus redutos de influência, é possível afirmar que a projeção de poder geopolítica e econômica de Paris na África foi enfraquecida e sua estrutura muito debilitada. Esta foi mais uma derrota do governo Macron no tabuleiro geopolítico. No entanto, essas mudanças afetam também a Europa e os EUA, abrindo lacunas no domínio geopolítico ocidental.
Mesmo sem provas contundentes da participação de Moscou nos golpes da África e nos protestos na França, é possível fazer uma conexão entre as diversas crises que Paris passou em um curto espaço de tempo com a retaliação da Rússia sobre a tentativa de golpe que Prighozin liderou sobre o governo Putin. A cronologia dos acontecimentos é interessante, pois a tentativa de golpe na Rússia ocorreu em 23 de junho, com as manifestações e agitações sociais francesas ocorrendo no final do mesmo mês, logo após a rebelião do grupo Wagner. Imerso no estado de emergência, Paris foca totalmente sua atenção ao cenário nacional, deixando em segundo plano seus interesses nacionais e sua influência em países estratégicos, como suas ex-colônias africanas. Em julho, um golpe militar ocorreu no Níger, onde a França detém forte influência e relações estratégicas. Em agosto, um golpe de Estado ocorreu no Gabão, também dificultando as relações de Paris com outra ex-colônia.
Dessa forma, é possível analisar que as reverberações internas provocadas pelos distúrbios e convulsões socias no final de junho foram essenciais para divergir atenção francesa e permitir que golpes fossem articulados nas regiões de influência da França. Outros golpes ocorreram em ex-colônias francesas em 2022 e 2021, mas os golpes militares de 2023 chamam a atenção, pois foram dois seguidos, em países estratégicos para Paris e num espaço de tempo de dois meses. Tudo ocorreu logo em seguida à crise interna que o governo francês teve de enfrentar.
Não obstante, a Rússia e a China vêm estreitando relacionamento com os países africanos ao longo dos últimos anos. Pequim, mais focado na vertente econômica, enquanto Moscou aumenta sua influência política no setor de segurança, oferecendo os serviços de suas companhias militares privadas e com contratos vantajosos de compras de armas para os países. A vertente econômica também é estratégica para o aumento da influência de Moscou na região. As exportações russas para a África em 2023 aumentaram mais de 50%, para US$ 15,6 bilhões (janeiro a setembro), em comparação a US$ 10,1 bilhões no ano de 2022. As importações russas da África aumentaram em 10%, para US$ 2,5 bilhões, corroborando o aumento da influência russa na região.
Numa cimeira África-Rússia realizada em 2023 na cidade de São Petesburgo, o presidente Putin anunciou apoio a batalha africana contra o neocolonialismo, com Moscou amortizando a dívida de US$ 23 bilhões dos países africanos e afirmando que mais de 50 mil toneladas de cereais serão entregues gratuitamente ao continente.
Portanto, pode-se concluir que a tentativa do Ocidente de atacar os alicerces de poder de Vladimir Putin tenha sido um gatilho para que Moscou começasse a retaliar de maneira contundente os países europeus, utilizando da mesma estratégia ocidental de "regime change", já exposto no artigo: As Revoluções Coloridas e Seus Propósitos. Fazendo disso uma oportunidade de aumentar mais rapidamente sua influência na África.
Concomitantemente ao aumento da influência russa na África e a perda de poder Ocidental no continente, o cenário europeu em relação a guerra da Ucrânia começa a dar sinais de estagnação pública, política e econômica. A Hungria, que tenta manter uma certa neutralidade sobre o conflito em seu vizinho, não forneceu ajuda militar a Ucrânia e nem permitiu que armas entrassem em seu território para serem entregues a Kiev. No entanto, Budapeste ainda pode vetar o ingresso da Ucrânia na UE e na OTAN.
Sendo assim, em setembro de 2023, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban anunciou que a Hungria não apoiaria Kiev em nenhuma pauta internacional enquanto não fossem restaurados os direitos linguísticos aos húngaros étnicos que residem na Ucrânia. Há tempos Orban critica a lei ucraniana promulgada em 2017 que restringe o uso da língua húngara em detrimento da obrigatoriedade da utilização da língua ucraniana. Tal lei resultou no fechamento de mais de cem escolas húngaras na região. Budapeste afirma que a lei priva mais de 150 mil húngaros étnicos de aprender sua língua natal. Tal ação de Kiev foi condenado pelo Conselho da Europa. Dessa forma, a política externa da Hungria se mantém distante da UE, tentando encontrar o equilíbrio entre a boa relação na Europa e com a Rússia.
Seguindo os passos da Hungria, a Polônia, antigamente uma grande patrocinadora do esforço de guerra ucraniano, anunciou o fim do envio e transferências de armamentos para a Ucrânia por meio de seu primeiro-ministro, Mateusz Morawiecki. Tal medida foi adotada depois do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky ter acusado Varsóvia de entrar na influência russa depois do país proibir as importações dos cereais ucranianos.
A Polônia é um dos principais apoiadores da Ucrânia na guerra, com a afirmação tendo um grande impacto no cenário internacional. O presidente polonês, Andrzej Duda, diminuiu o tom da afirmação, apaziguando os ânimos, mas reiterou que o objetivo principal da Polônia no momento é se reequipar militarmente. Segundo o presidente polaco, Varsóvia não cessaria seu compromisso com o que já havia sido acordado e continuaria disponibilizando seu território para a entrega das armas à Kiev. Isso se configura em um sério problema para Zelensky dar continuidade em seu esforço de guerra. Dessa forma, percebe-se que a tese lançada no artigo Conclusões Prévias Sobre a Estratégia Geopolítica Russa na Invasão da Ucrânia, começa a se confirmar.
As eleições de outubro na Eslováquia levaram Robert Fico ao posto de primeiro-ministro, sendo eleito com uma campanha pautada em dois pilares principais: fim do apoio militar à Ucrânia e fim das sanções à Rússia. Segundo o atual primeiro-minsitro eslovaco, Bratislava tem problemas maiores do que a guerra na Ucrânia, como o preço da energia e o custo de vida dos eslovacos. Dessa forma, Fico pôs fim ao auxílio eslovaco à Kiev. Não obstante, em outubro, Hungria e Eslováquia criticaram duramente a proposta de orçamento da UE para direcionar € 50 bilhões para auxílio à Ucrânia.
Portanto, percebe-se que aos poucos está havendo uma mudança de posicionamento de alguns países europeus em relação a guerra da Ucrânia ou a própria capacidade de Kiev ganhar o conflito. Isto ocorre pela guerra de desgaste perpetrada pela Rússia e suas consequências econômicas. Segundo o próprio Orban, as dificuldades financeiras do Ocidente provenientes deste cenário farão os países da UE batalharem pela paz e não pelo auxílio à guerra.
Além do cenário acima citado, em setembro o Azerbaijão lançou uma operação militar em Nagorno-Karabakh, visando a retomada total do território. Tal ação gerou um enorme êxodo de armênios da região disputada, assim como o fim das instituições da República de Artsakh, selando a vitória azeri no conflito. Interessante perceber que a operação ocorreu na zona de influência russa, sobre um aliado histórico de Moscou que é a Armênia.
O fato de Moscou ter se abstido do conflito ou de interferir diretamente na zona da operação militar azeri em Nagorno-Karabakh, pode ser entendida pelo alinhamento de Yerevan com os EUA e as políticas ocidentais, se afastando da zona de influência russa. Sob o governo do primeiro-ministro Nikol Pashinyanm, a Armênia realizou exercícios militares conjuntos com os EUA, recebeu investimentos do governo norte-americano por meio da USAID (United States Agency for International Development) e enviou auxílio financeiro à Ucrânia. Portanto, tais medidas podem ter sido crucuias para que Moscou se mantivesse neutro no conflito recente.
Todo o cenário geopolítico citado acima leva a entender que a postura do governo de Vladimir Putin perante a posição russa no Sistema Internacional se tornou muito mais agressiva do que anteriormente, utilizando das estratégias norte-americanas de "regime change" para maximizar sua influência na África e dividindo sua atenção com a desestabilização de países e governos. Isso pode ser entendido como uma retaliação direta a tentativa de golpe na Rússia em meados de 2023.
O que se observa é a fadiga da guerra na Ucrânia na opinião pública ocidental, principalmente nos países europeus que estão sofrendo as maiores consequências econômicas. Isto ocorre pela Rússia propositalmente lutar uma guerra de desgaste na Ucrânia, levando muitos países a crises constantes e agitações políticas, como pode ser visto claramente na França, Espanha e Polônia. Dessa forma, novamente os países serão obrigados a olhar para seus problemas internos e desfocar sua atenção na Ucrânia, com países inclusive cessando completamente seu apoio financeiro e militar a Kiev.
Como Eslováquia, Hungria e Polônia são membros da OTAN, é possível questionar o quão coeso está o grupo em relação a situação ucraniana. No caso da Polônia, que prometeu apoiar incondicionalmente a Ucrânia com a retórica da ameaça russa sobre seu território, não chegou a dois anos de auxílio, colocando em xeque a palavra de Varsóvia. Não diferente, os EUA estão diminuindo gradativamente seu apoio financeiro e militar à Ucrânia, muito pela guerra entre Israel e Hamas ter eclodido no Oriente Médio, o qual abordarei no próximo artigo.
Portanto, os EUA estão encurralados, pois já avaliando o ano eleitoral de 2024, o presidente Joe Biden está tendo de escolher continuar a ajuda para a Ucrânia ou auxiliar Israel, com Biden priorizando seu parceiro estratégico no Oriente Médio em detrimento de Kiev. Dessa forma, a guerra na Ucrânia está ficando em segundo plano para os EUA, com Washington voltando sua atenção ao Oriente Médio. Um novo questionamento que fica caso os EUA cessem seu auxílio à Kiev é: quão confiável é ser aliado dos EUA e do Ocidente?
Escancarou-se a possibilidade da Ucrânia, a qual o Ocidente prometeu auxiliar incondicionalmente, estar sendo abandonada. Desse questionamento, dúvidas surgem em relação ao poder dos EUA no Sistema Internacional e sobre a OTAN acreditar que pode contar com o poderio militar dos EUA em caso de conflito. A primeira dúvida é notória, pois Washington não consegue auxiliar dois aliados sendo a maior potência financeira e militar do planeta, enquanto em plena Segunda Guerra Mundial os EUA foram capazes de lutar e mobilizar tropas em três frentes diferentes de combate (Europa, África e Ásia), todas com participações principais. A segunda dúvida é o questionamento de um país europeu se envolver militarmente num conflito com a Rússia, pois não se pode mais contar com o auxílio dos EUA e talvez nem de seus vizinhos participantes do grupo.
Dessa forma, a guerra na Ucrânia começa a expor a verdadeira face da estratégia russa, de pôr em xeque o domínio Ocidental do Sistema Internacional por meio de uma guerra de desgaste. Conflitos paralelos, como Israel e Hamas, após o brutal massacre de 07 de outubro, mostraram a volatilidade do Sistema Internacional e auxiliam Moscou em seu objetivo principal.
Nota de Rodapé:
[1] Fonte: HANCOCK, Sam. France shooting: Macron accuses rioters of exploiting teen killed by police. 2023. BBC. Disponível em: https://www.bbc.co.uk/news/world-europe-66069080. Acesso em: 15 jul. 2023.
[2] Fonte: PODER 360. Países da África tiveram 7 golpes de Estado em 2 anos. 2023. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/paises-da-africa-tiveram-7-golpes-de-estado-em-2-anos/. Acesso em: 05 set. 2023.
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Faz todo sentindo!